Taiguara - Imyra Tayra Ipy
25/05/2016 - 22h57 em Música

Censurado pela ditadura militar logo que foi lançado, em 1976, o disco imyra, tayra, ipy, de Taiguara, nunca teve um show de lançamento. Recentemente reeditado em CD, o álbum ganha finalmente vida sobre o palco por meio dos músicos que o registraram em estúdio, como Wagner Tiso, Toninho Horta, Jaques Morelenbaum, Nivaldo Ornellas e Novelli.

Há quem só associe o nome de Taiguara (1945-1996) a suas baladas e canções de sucesso dos anos 1970 em diante, como Hoje, Universo no Teu Corpo, Teu Sonho Não Acabou, Que as Crianças Cantem Livres e Viagem. Mas Taiguara Chalar da Silva, filho do bandoneonista Ubirajara e da cantora de tangos Olga, tem uma trajetória bem mais densa.

Uruguaio, naturalizado brasileiro, criado entre o Rio e São Paulo, ele debutou na bossa paulista em 1964 apadrinhado pelas cantoras Alaíde Costa e Claudette Soares e seu disco de estreia, com arranjos de Luis Chaves, do Zimbo Trio, trazia elogios enfáticos de Edu Lobo e Luis Eça. 

Neste precioso vinil de 1976, gravado na volta do exílio londrino, em que no título, ele investiga o universo indígena do próprio nome - “Imyra (árvore, madeira, pão), Tayra (filho), Ipy (cabeça de geração, princípio, origem), Taiguara” (foro, livre, senhor de si) – é possível medir a multiplicidade de seu talento. Cercado de ases como Hermeto Pascoal (arranjos, flautas), Wagner Tiso (regência), Jaques Morelenbaum (cello), Toninho Horta (violão), Nivaldo Ornellas (sax, flauta), Novelli (baixo) e naipes de sopros e cordas (68 músicos ao todo), Taiguara mergulha no experimentalismo, sem abrir mão da artesania melódica. 

Dribla a censura da ditadura (teve 44 músicas vetadas; as deste disco seguiram em nome de Geisa, sua mulher na época) em temas engajados como Terra das Palmeiras(“a minha amada amordaçada/ de amor forçado a se calar”), Situação (“não adianta não/ a situação já está fora de suas mãos”), Primeira Bateria (“liberdade/ quero até morrer por você”). Pianice, vinheta de abertura, vem de uma peça sinfônica apresentada no curso feito em Londres, na Guildhall School. 

Público (“eles querem lotar o Maracanã/ e precisam de mim, lá vou eu”) ironiza sua fase de ganhador de festivais, assim como Aquarela de um País dialoga com a célebreAquarela do Brasil, de Ary Barroso. Se Três Pontas (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) o vincula ao Clube da Esquina, de boa parte dos músicos da gravação, Samba das Cinco escancara sua formação carioca. 

O universo poético sonoro do enredo abre-se ainda aos vetores indígena (A Volta do Pássaro Ameríndio, Sete Cenas de Ymira), afro (Luanda, Violeta Africana) e ibérico (Como em Guernica) de nossa formação miscigenada, da qual Taiguara torna-se neste disco, mais que nunca, intenso porta-voz e arauto. 

Com Wagner Tiso (direção musical e piano), Toninho Horta (violão e guitarra), Jaques Morelenbaum (cello), Nivaldo Ornelas (sax e flauta), Novelli (baixo), Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão) e convidados especiais. 

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